
Fernanda Pimenta e a força da palhaçaria feminista no Brasil
Fernanda Pimenta traz a Goiânia o espetáculo “Malagueta na Labuta”, solo de palhaçaria que une humor e crítica social para abordar desigualdades de gênero.
TEXTO: IASMIN FEITOSA

A palhaçaria feminina tem ganhado cada vez mais espaço no cenário artístico brasileiro, desafiando estereótipos e trazendo novas perspectivas para a comicidade. Uma das principais representantes desse movimento no Centro-Oeste é Fernanda Pimenta, criadora e intérprete do espetáculo “Malagueta na Labuta”, que retorna a Goiânia para uma apresentação única no CCUFG, no dia 2 de abril.
Doutora em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), Fernanda desenvolveu sua pesquisa acadêmica sobre palhaçarias feministas, investigando como os dispositivos de gênero, como o amoroso e o materno, influenciam a criação artística das palhaças. Seu trabalho une humor e crítica social, explorando as opressões enfrentadas pelas mulheres e subvertendo padrões historicamente impostos.
No palco, Fernanda dá vida à palhaça Malagueta, uma personagem cativante que usa a comicidade para abordar temas como violência contra a mulher e invisibilidade social. O espetáculo, que já circulou por diversas cidades brasileiras e recebeu elogios de grandes nomes do circo, como o palhaço Biribinha (Teófanes Silveira), é um exemplo de como a arte pode provocar reflexões profundas ao mesmo tempo em que diverte.
Nesta entrevista, Fernanda Pimenta fala sobre sua trajetória, o impacto de sua pesquisa acadêmica em seu trabalho artístico e o poder transformador do riso.
Confira a seguir.

ENTREVISTA
CC: Como surgiu a ideia do “Malagueta na Labuta”?
Fernanda Pimenta: Minha trajetória começou no teatro, onde atuei por algum tempo até descobrir a palhaçaria. No início, meu trabalho era voltado para o público infantil, mas, com o tempo, comecei a criar cenas que abordavam questões de gênero e a experiência de ser mulher. Essas cenas surgiam de situações cotidianas, como limpar a casa, sem a intenção inicial de fazer um discurso feminista, mas sim de explorar ações comuns do dia a dia que poderiam gerar reflexão. Foi nesse processo que me reconheci como Malagueta e desenvolvi o projeto “Malagueta na Labuta”, unindo humor e crítica social para tratar dessas questões.
Quais temas você aborda no espetáculo?
Falo sobre o trabalho feminino, a sobrecarga que muitas mulheres enfrentam, os padrões impostos pela sociedade e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Trago essas reflexões de forma leve e cômica, mas sempre provocando o público a pensar sobre essas questões. A ideia é transformar o riso em um instrumento de crítica e sensibilização.
Como a palhaçaria contribui para a mensagem que você quer passar?
A palhaçaria permite abordar temas sérios de maneira acessível e envolvente. Através do humor, consigo criar empatia com o público e provocar reflexões sem que o assunto pareça pesado ou distante. O riso quebra barreiras e torna as discussões mais abertas, permitindo que cada pessoa se identifique com a cena de alguma forma.
Como o público reage ao espetáculo?
Tivemos circulações importantes no ano passado e neste ano, que me permitiram observar as reações do público em diferentes apresentações. Esse é um exercício constante para mim: após cada espetáculo, reflito sobre quais piadas funcionaram e quais não tiveram o mesmo efeito. Às vezes, uma piada faz muito sucesso em uma sessão e, em outra, passa despercebida. Entender essas variações é parte do meu processo criativo.
Além disso, coletamos depoimentos do público, incluindo crianças, adultos, mulheres, homens, pessoas mais velhas e adolescentes. Foi interessante perceber a diversidade de percepções, todas muito positivas. Na verdade, eu até gostaria de ter recebido algumas críticas mais desafiadoras, algo que fugisse um pouco do elogio unânime, pois isso também ajudaria a aprimorar o espetáculo. No entanto, foi gratificante perceber que a mensagem chega ao público e gera reflexões.
Como os homens costumam reagir ao espetáculo?
A recepção do público masculino varia bastante. Alguns homens que têm mais familiaridade com questões de gênero rapidamente identificam os temas abordados, como a autonomia feminina e a relação tóxica da personagem com o marido. Eles reconhecem que essa relação não era saudável e fazem comentários nesse sentido.
No entanto, a maioria do público masculino não se atém tanto a essas questões. Para eles, o impacto do espetáculo parece estar mais ligado à performance em si, à minha capacidade de sustentar o humor sozinha no palco por tanto tempo. Muitos demonstram admiração por essa habilidade e comentam sobre como foi impressionante manter o ritmo cômico durante toda a apresentação. É interessante perceber esses diferentes pontos de vista e como cada espectador se conecta com o espetáculo de maneiras distintas.

O espetáculo passou por algumas transformações desde sua estreia. Como foi o processo de remontagem com a palhaça catalã Pepa Plana?
A trajetória do espetáculo foi um longo processo de aprendizado e aprimoramento. A palhaçaria é a coisa mais prazerosa que já fiz, mas também pode ser muito dolorosa quando algo não funciona. Minha formação começou no teatro em 2003, e desde 2006 venho me dedicando a cursos de palhaçaria. Em 2014, comecei a atuar em espetáculos do gênero e, por volta de 2018, iniciei a criação de cenas que resultaram no espetáculo montado em 2021.
Foram anos de oficinas e estudos para desenvolver o trabalho, e ele continua em evolução. Um momento marcante foi o processo de remontagem com a palhaça catalã Pepa Plana, que trouxe novos olhares sobre a personagem e a interação com o público. A cada apresentação, percebo mudanças sutis, seja na construção da personagem, na dinâmica com a plateia ou na maneira de explorar o humor e a narrativa. Esse constante aperfeiçoamento é parte essencial da palhaçaria, mantendo o espetáculo sempre vivo e renovado.
Qual foi a sensação de receber elogios tão fortes de um artista renomado como o Biribinha?
Receber elogios de Biribinha foi uma experiência inesquecível. Ele é uma verdadeira lenda da palhaçaria no Brasil, com um conhecimento profundo sobre comicidade, palhaçaria e circo-teatro. No ano passado, ele esteve em Goiânia ministrando um curso de palhaçaria musical, do qual participei. Aproveitei a oportunidade para convidá-lo a assistir ao meu espetáculo, que coincidentemente aconteceria naquela mesma semana.
Biribinha assistiu à apresentação e, no dia seguinte, me presenteou com um depoimento emocionante durante o curso. Ele falou por cerca de meia hora sobre o espetáculo, mas, infelizmente, não gravei esse momento. Mais tarde, pedi que ele registrasse outro depoimento, e ele gravou um vídeo de três minutos igualmente especial. Foi uma validação muito importante do meu trabalho, vinda de alguém que admiro tanto.
Você é uma das principais representantes da palhaçaria feminina no Centro-Oeste. Como enxerga a evolução desse movimento no Brasil?
Nos últimos anos, o movimento da palhaçaria feminina no Brasil tem crescido e se fortalecido significativamente. O termo “palhaçaria feminina” refere-se à palhaçaria feita por mulheres, embora algumas profissionais questionem essa nomenclatura. Enquanto as palhaças podem atuar em diferentes estilos, incluindo a palhaçaria tradicional, convencionou-se chamar de palhaçaria feminina qualquer manifestação artística conduzida por mulheres nesse universo.
Além disso, há a palhaçaria feminista, que se diferencia por abordar questões de gênero de maneira mais explícita, sem cair no panfletarismo. Esse estilo busca trazer reflexões sobre a experiência feminina na sociedade, utilizando o humor como ferramenta de crítica e diálogo. O aumento da presença de mulheres na palhaçaria tem ampliado as oportunidades para novas narrativas e vozes, promovendo diversidade e visibilidade dentro da arte da comicidade.
Você é doutora em Artes Cênicas pela UnB. Como sua pesquisa acadêmica influenciou seu trabalho artístico?
Eu conclui meu doutorado em Artes Cênicas na Universidade de Brasília (UnB) com a pesquisa intitulada “Subversivas: palhaçarias feministas”, defendida em agosto de 2024. Minha pesquisa começou em 2020, durante a pandemia, e analisou a atuação de palhaças a partir da perspectiva dos dispositivos de gênero, um conceito desenvolvido pela psicóloga Valesca Zamelo. Eu identifiquei que dois dispositivos de gênero predominam na construção da subjetividade das mulheres: o amoroso e o materno. De acordo com Zamelo, a sociedade reforça constantemente a ideia de que, para ser legitimada enquanto mulher, uma pessoa deve buscar o amor romântico e a maternidade. Em minha pesquisa, explorei como esses dispositivos afetam a criação artística das palhaças e como algumas subvertem esses padrões em suas performances. Além disso, também considerei as intersecções de raça e classe, reconhecendo que mulheres negras, por exemplo, enfrentam desafios adicionais, como o impacto do racismo.
Que impacto você deseja ter no público?
Eu espero que meu espetáculo provoque reflexões profundas no público, mas também reconheço que uma única apresentação tem suas limitações. Em um mundo ideal, eu gostaria que minha performance levasse as pessoas a questionar e abandonar valores patriarcais, mas sei que essa transformação exige um processo contínuo. Acima de tudo, meu principal desejo é que o público se divirta. Para mim, o riso tem um papel essencial na experiência humana, especialmente diante das incertezas da vida. Além do entretenimento, eu quero que a plateia saia do espetáculo intrigada com minha personagem, questionando como alguém pode ser tão ingênua e, ao mesmo tempo, tão cativante.
CONCLUSÃO
A trajetória de Fernanda Pimenta mostra como a arte pode ser uma poderosa ferramenta de reflexão e transformação social. Com “Malagueta na Labuta”, ela desafia estereótipos de gênero e abre espaço para novas narrativas dentro da palhaçaria, trazendo à cena temas urgentes de forma leve, crítica e acessível.
Seja no palco ou na pesquisa acadêmica, Fernanda segue ampliando os horizontes da comicidade, inspirando outras mulheres a ocuparem esse espaço e provocando o público a repensar padrões e estruturas que, muitas vezes, passam despercebidos no cotidiano. Entre o riso e a reflexão, seu trabalho prova que o humor pode ser, além de entretenimento, um ato político e transformador.
