Eu Vou Cuidar do Seu Jardim: pintura, memória e cultivo como gesto de continuidade
Na Galeria de Vidro do Centro Cultural UFG, Emilliano Freitas transforma arquivos familiares em pintura e propõe o cuidado como elo intergeracional
Texto por: Lucas Lustosa
Entre memória, cultivo e permanência, a exposição Eu Vou Cuidar do Seu Jardim transforma a Galeria de Vidro do Centro Cultural UFG em um espaço de atravessamento entre o íntimo e o coletivo. Em cartaz até 27 de fevereiro de 2026, a mostra individual de Emilliano Freitas reúne 19 pinturas realizadas com esmalte de unha sobre papel, desdobrando a série Cultivar jardins como quem mantém a mãe viva.
Com curadoria de Mariane Beline, a exposição parte de filmagens em VHS realizadas em 1998 pela mãe do artista, que registrava seu jardim de roseiras no quintal de casa. A partir desse arquivo doméstico, Emilliano constrói uma poética que investiga as camadas do tempo, a dimensão ética do cuidado e as formas de subjetivação produzidas no interior das relações familiares.
Ao ressignificar o esmalte de unha — material associado ao universo doméstico e ao trabalho invisibilizado das mulheres de sua família — o artista tensiona questões de gênero, memória e ancestralidade, articulando arquivo e pintura como gestos de continuidade. Entre ruídos, brilhos e sobreposições, suas obras evocam não apenas imagens de um jardim, mas a experiência de sustentar vínculos e reativar presenças.
É nesse território entre afeto e política, passado e presente, que se insere a conversa a seguir.
Como surgiu a ideia da exposição Eu Vou Cuidar do Seu Jardim e em que momento você percebeu que essa pesquisa deveria se desdobrar em uma mostra individual?
A ideia da exposição Eu Vou Cuidar do Seu Jardim surgiu a partir de um vídeo em VHS gravado pela minha mãe na década de 1990. Na época, ela tinha aproximadamente a idade que tenho hoje. Esse pequeno registro, em que ela filma suas roseiras no quintal de casa, me fez pensar sobre a sobreposição de tempos entre o passado e o presente, e sobre as formas de cuidado que atravessam gerações. Ali estavam o cuidado comigo e com meu irmão, com a casa, com meus avós, mas também um gesto direcionado a si mesma.
Ao revisitar esse material, comecei a perceber que, por meio daquele vídeo doméstico, uma mulher do interior de Minas Gerais cultivava não apenas plantas, mas também sua própria subjetividade. As primeiras pinturas realizadas a partir desse arquivo surgiram em 2024, como um modo de elaborar essas camadas de memória, afeto e trabalho cotidiano.
A decisão de transformar essa pesquisa em uma mostra individual veio no momento em que percebi que as pinturas, quando reunidas, estabeleciam entre si um campo de relações que ampliava o sentido de cada obra isoladamente. A exposição se tornou, então, uma forma de compreender como esses trabalhos dialogam, tensionam e aprofundam a investigação sobre tempo, cuidado e cultivo.
O título carrega um gesto de promessa e continuidade. O que significa, para você, “cuidar” desse jardim no contexto da exposição?
O título vem da canção “Eu Vou Cuidar de Você”, gravada pelos Titãs no álbum Acústico MTV Titãs, de 1997. Meu irmão tinha esse CD em casa e nós ouvíamos essa música com frequência. Há algo que me atravessa quando penso que, em 1998, enquanto minha mãe filmava suas roseiras em VHS, essa canção também fazia parte do nosso cotidiano. São camadas de memória que se sobrepõem: o som, a imagem, o quintal, a infância. Anos depois, entre 2005 e 2007, reencontrei a frase “eu vou cuidar do seu jardim” projetada no cenário do espetáculo “Por Elise”, do Grupo Espanca!. A frase voltou como imagem deslocada da canção, mas ainda carregando uma dimensão de afeto e responsabilidade. Esse cuidar do jardim, no contexto da exposição, trata-se de um gesto ético, de manter algo vivo, mesmo quando ele já pertence ao passado. É revisitar o arquivo da minha mãe sem transformá-lo em relíquia, mas ativá-lo como matéria presente. É reconhecer no gesto dela uma forma de trabalho invisível, cotidiano, e dar continuidade a ele por meio da pintura, assumindo a a responsabilidade por essas imagens e por essa memória. Não como quem preserva algo intacto, mas como quem cultiva, aceita as transformações, lida com as perdas e entende que todo jardim exige presença, repetição e escuta.
Esse cuidar também se desdobra como um gesto poético de alteridade. Ao olhar para minha mãe cuidando das plantas enquanto cuidava dos filhos, percebo que o jardim era também uma extensão desse cuidado. Pensar esse gesto hoje é perguntar como continuamos a cuidar uns dos outros, em que condições e com quais ferramentas simbólicas. Cuidar é sustentar vínculos, é dedicar tempo ao que não produz resultados imediatos, é reconhecer a fragilidade como parte da experiência. O cuidado, então, deixa de ser apenas memória e passa a ser posicionamento.
A série parte de filmagens em VHS realizadas por sua mãe em 1998. Como foi o processo de reencontro com esse arquivo e sua transposição para a pintura?
O reencontro com esse arquivo foi uma surpresa. Eu me lembrava das outras imagens registradas na fita, sobretudo as que documentavam celebrações coletivas, cenas que ocuparam um lugar mais evidente na memória. As imagens do jardim, no entanto, eu não recordava, talvez porque fossem espaço íntimo, diferente da dimensão pública das festas. Ao assistir novamente à fita, percebi que aquelas flores tinham permanecido à margem da minha lembrança, como se também ocupassem um lugar lateral na narrativa familiar. Esse deslocamento me interessou. Havia ali um tempo outro, mais lento, menos performático, que contrastava com a lógica da celebração.
A transposição para a pintura exigiu um processo extenso de pesquisa.Foi necessário compreender o próprio estado material do vídeo, já que a fitaa VHS já carregava uma pátina do tempo, com ruídos, variações de cor e pequenas falhas provocadas pelo desgaste. A digitalização para DVD não eliminou essas marcas; ao contrário, evidenciou certas camadas de deterioração. Passei a observar como essas interferências afetavam a imagem, como alteravam a paleta e produziam zonas de indefinição. A partir daí, o desafio foi pensar como essas características poderiam se tornar linguagem pictórica. Não se tratava de corrigir a imagem, mas de entender suas distorções como parte da composição.
A mostra reúne 19 obras realizadas com esmalte de unha sobre papel. Como se organiza seu processo de criação — da seleção das imagens até a construção das camadas de tinta?
Antes de selecionar uma imagem, ou um conjunto de imagens, eu revejo o vídeo diversas vezes e vou capturando os frames que me interessam. A partir do frame escolhido, começo a definir a paleta, os enquadramentos, os cortes e as aproximações. Esse estudo é fundamental para reforçar o diálogo entre o suporte analógico do VHS, a memória e a pintura. Também é nessa etapa que se decide a dimensão da obra, pois o enquadramento e a escala influenciam diretamente na presença física da imagem no papel.
Depois disso, faço a transferência da imagem para o papel e inicio o estudo das cores. Trabalho sempre das tonalidades mais claras, como brancos e cinzas, até chegar aos verdes mais escuros. Cada cor costuma receber entre cinco e seis camadas de esmalte, e o acúmulo cria profundidade, densidade e pequenas variações de brilho, que dialogam com a instabilidade cromática do vídeo. O esmalte de unha, por suas características próprias, impõe um ritmo próprio ao trabalho, como o tempo de secagem, a sobreposição de camadas, um processo lento e repetitivo, que também se aproxima da ideia de cultivo que atravessa a exposição. Não me interessa reproduzir fielmente o vídeo. O que busco é traduzir suas atmosferas, seus silêncios e suas falhas em matéria pictórica, permitindo que a pintura carregue tanto a imagem original quanto as marcas do tempo e do gesto presente.
O uso do esmalte de unha ativa dimensões domésticas, afetivas e também políticas. De que forma essa escolha material tensiona questões de gênero, memória e ancestralidade?
O uso do esmalte de unha atravessa minha história pessoal. Minha mãe é manicure e eu cresci convivendo com esse material, com o cheiro, as cores organizadas em caixas, os gestos repetidos do fazer. Ao mesmo tempo, era um universo que, de certo modo, me era interditado. O esmalte estava associado ao feminino, às mulheres da casa, e não a mim. Ao escolher esse material para pintar, aciono essa memória e a reinscrevo no presente. Há também um deslocamento simbólico nesse gesto. Sendo homem, utilizar o esmalte como meio pictórico é uma forma de tensionar as fronteiras de gênero que marcaram minha formação. Resgatar esse material é reconhecer o trabalho da minha mãe, historicamente situado no campo do cuidado e muitas vezes invisibilizado, e trazê-lo para o espaço expositivo como linguagem. O que antes era visto como restrito a um universo feminino se transforma em ferramenta de construção de imagem, memória e continuidade.
A exposição acontece na Galeria de Vidro do CCUFG, um espaço marcado pela transparência e pela relação com a cidade. Como você pensou a montagem em diálogo com essa arquitetura?
Embora a Galeria de Vidro do Centro Cultural UFG seja caracterizada pela transparência, não vejo essa condição como uma abertura direta para a cidade. O espaço é relativamente fechado em si. O vidro estabelece sobretudo uma relação com a galeria do térreo, ainda que de maneira discreta. Pensamos a montagem a partir do percurso: o visitante sobe a escada e se depara com um ambiente que muitos ainda não conhecem. Nesse sentido, o vidro funciona quase como uma vitrine, antecipando a experiência.
Ao mesmo tempo, trata-se de um espaço com muitas interferências arquitetônicas, como tomadas aparentes, ar-condicionado, excesso de luminárias no teto e um pé-direito baixo. O diálogo com a arquitetura partiu do desejo de diminuir esses ruídos visuais. A decisão de pintar apenas uma parede de rosa criou um ponto de profundidade e reorganizou a percepção do ambiente. As pinturas, com fundo branco e molduras brancas sobre paredes também brancas, parecem flutuar. Essa estratégia buscou suavizar as interferências, produzir uma atmosfera mais contínua e permitir que o trabalho respirasse dentro das limitações do espaço.
Como foi o processo de interlocução com a curadora Mariane Beline na definição do recorte, da expografia e da narrativa da mostra?
O processo de interlocução com Mariane Beline foi decisivo para amadurecer o recorte e a forma da exposição. Desde o início, conversamos sobre como organizar as pinturas de modo que o conjunto produzisse um campo de relações, evitando uma leitura literal do arquivo. A definição do recorte e da expografia surgiu desse diálogo, pensando ritmo, respiros, aproximações e a experiência do visitante no espaço.
O texto que Mariane escreve para a mostra é uma leitura sensível da pesquisa. Ele não explica as obras, mas cria uma camada de reflexão que amplia suas questões, especialmente em torno de memória, cuidado e tempo. Essa troca foi importante para transformar uma investigação íntima em uma narrativa expositiva consistente, sem perder a delicadeza que sustenta o trabalho.
O que você espera que o público experimente ao percorrer a exposição — especialmente diante das relações entre memória familiar, cuidado e construção das subjetividades no presente?
Espero que o público possa desacelerar ao percorrer a exposição, permitindo-se estar diante das imagens sem a expectativa de uma narrativa fechada. Que as pinturas ativem memórias próprias, mesmo que não sejam as minhas, e que o gesto de cuidado que atravessa o trabalho seja percebido como algo compartilhável. Ao lidar com a memória familiar, não busco uma história particular, mas uma experiência comum: a de ter sido cuidado e de, em algum momento, precisar transformar esse cuidado em gesto presente.
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A exposição Eu Vou Cuidar do Seu Jardim pode ser visitada na Galeria de Vidro do Centro Cultural UFG até o dia 27 de fevereiro de 2026, com entrada gratuita. Após a conversa com Emilliano Freitas, o público é convidado a experimentar presencialmente as 19 pinturas que articulam arquivo, memória e cuidado como gesto ético e poético de continuidade.
Em sua última semana em cartaz, a mostra se apresenta como oportunidade de desacelerar e percorrer, com atenção, uma pesquisa que transforma imagens familiares em campo de reflexão coletiva. A visita é gratuita — um convite aberto para cultivar, também, nossos próprios jardins de memória.
Categorias: Artes Visuais

