Centro Cultural UFG recebe a exposição “Essa Grande Liberdade” e mostra de cinema “Cine Via Láctea”, dedicadas às vivências LGBTQIAPN+ em Goiás
Mostra reúne mais de 60 artistas LGBTQIAPN+ e programação de cinema no CCUFG, promovendo reflexões sobre memória, diversidade, arte e dissidências em Goiás.
Por: João Bastos
O Centro Cultural UFG (CCUFG) abriu, no último dia 12, a exposição Essa grande liberdade: identidades LGBTQIAPN+ em Goiás. Com entrada gratuita, a mostra segue em cartaz até o dia 10 de julho e reúne mais de 60 artistas e cerca de 120 obras que atravessam diferentes gerações, linguagens e experiências da produção artística LGBTQIAPN+ no estado.
Foto: Lucas Lustosa
Sob curadoria de Paulo Duarte-Feitoza, reunindo obras de 1974 até a contemporaneidade, a exposição propõe um amplo panorama das produções visuais dissidentes em Goiás, aproximando artistas de diferentes períodos e contextos históricos. A mostra reúne nomes consolidados da arte goiana, como Fernando Costa Filho, Fabíola Morais, Adriana Bittar, Marcelo Solá, Divino Sobral e Enauro de Castro, ao lado de artistas contemporâneos como Benedito Ferreira, Emilliano Freitas, Âmbar Moura, Hilda de Paulo e Daniela Marques.
Além de seu caráter artístico e cultural, a exposição também assume um importante papel pedagógico ao construir um panorama das experiências, memórias e formas de organização LGBTQIAPN+ em Goiás. Ao reunir obras, documentos, produções audiovisuais e referências históricas de diferentes períodos, a mostra contribui para ampliar o conhecimento sobre a presença e a atuação das populações dissidentes de gênero e sexualidade no estado, evidenciando trajetórias frequentemente apagadas das narrativas oficiais. Nesse sentido, a exposição promove reflexões sobre pertencimento, resistência e direitos, aproximando o público de processos históricos fundamentais para a compreensão das transformações sociais e culturais em Goiás.
O título da exposição parte de uma fala do fotógrafo goiano Samuel Costa, que, em 1975, descreveu o desejo de fotografarar uma “pequena liberdade” ao se mudar para a França. A partir dessa ideia, a curadoria amplia o conceito de liberdade como espaço de disputa, criação e reinvenção de modos de existência.
Além das artes visuais, a mostra também incorpora produções audiovisuais, videoclipes e obras ligadas à música e à cultura drag goiana, destacando artistas como Banda Uó, Candy Mel, Bruna Mendez, Maaju, Valentina e Lulu Monamour. A proposta evidencia a diversidade de expressões artísticas que atravessam a construção das identidades LGBTQIAPN+ em Goiás.
Integrando o projeto Trilogia Goiás, desenvolvido no âmbito do Laboratório de Curadoria da Faculdade de Artes Visuais da UFG, a iniciativa articula pesquisa acadêmica, extensão universitária e produção cultural, fortalecendo o compromisso da universidade com a promoção da diversidade, da reflexão crítica e do acesso à cultura.
MOSTRA CINE VIA LACTÉA

Como desdobramento da programação expositiva, o CCUFG também recebe a mostra Cine Via Láctea, dedicada ao cinema brasileiro contemporâneo e às dissidências estéticas, territoriais e de gênero. Com coordenação e mediação de Paulo Duarte-Feitoza e Lucas Lustosa, a programação reúne exibições gratuitas de filmes de realizadores goianos no Teatro do Centro Cultural UFG, promovendo debates sobre corpo, memória, cidade e experiências LGBTQIAPN+ no audiovisual contemporâneo.

Bate-papo com Diretor do longa "Granada", Benedito Ferreira. Na foto, Benedito Ferreira e Paulo Duarte-Feitoza. Foto: Lucas Lustosa.
A abertura, no dia 21 de maio, contou com a exibição de Granada (2023), de Benedito Ferreira, filme que transforma as ruas de Goiânia em espaço de encontro, memória e fabulação. No dia 28 de maio, será apresentado Capim-Navalha (2025), de Michel Queiroz, obra que aborda experiências trans na Chapada dos Veadeiros a partir das relações entre corpo, território e dissidência de gênero. Encerrando a programação, em 11 de junho, serão exibidos os curtas Urano (2013), Plutão (2015) e Netuno (2016), de Daniel Nolasco, produções que investigam desejo, masculinidades e afetos dissidentes em diferentes paisagens urbanas e interiores.

Bate-papo com Diretor do longa "Granada", Michel Queiroz. Na foto, Michel Queiroz e Lucas Lustosa. Foto: Paulo Duarte-Feitoza.
Inspirado no histórico grupo Via Láctea, coletivo artístico criado em 1981 por estudantes da então Universidade Católica de Goiás, conhecido por suas proposições irreverentes que articulavam teatro, dança, música, mímica e sátira, o projeto estabelece conexões entre memória cultural, experimentação artística e narrativas dissidentes no cinema brasileiro contemporâneo.
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A seguir, o curador Paulo Duarte-Feitoza comenta os processos de construção da mostra, os diálogos entre arte e memória LGBTQIAPN+ em Goiás e a importância de iniciativas culturais voltadas à diversidade no contexto contemporâneo.
Foto: João Bastos
ENTREVISTA
João Bastos: Como surgiu a proposta curatorial da exposição Essa grande liberdade: identidades LGBTQIAPN+ em Goiás?
Paulo Duarte-Feitoza: A exposição surgiu de uma inquietação antiga de pensar Goiás a partir de histórias, sensibilidades e experiências LGBTQIAPN+ que, durante muito tempo, permaneceram à margem das narrativas oficiais do estado. Ao longo dos últimos anos, fui percebendo a ausência de uma grande exposição histórica e coletiva dedicada a artistas LGBTQIAPN+ em Goiás, especialmente uma mostra que articulasse diferentes gerações, linguagens e contextos de produção.
A pesquisa começou de maneira bastante ampla, envolvendo arquivos, conversas com artistas, pesquisadores, militantes e pessoas que viveram diferentes momentos da cena cultural goiana. Aos poucos, a exposição foi se desenhando como um levantamento artístico e como uma investigação sobre memória, pertencimento, desejo, violência, amizade, festa e sobrevivência.
Existe ainda uma dimensão muito importante de afeto e reparação. A mostra nasce do desejo de construir espaços de visibilidade e reconhecimento para trajetórias que muitas vezes foram apagadas ou pouco legitimadas institucionalmente.
João Bastos: A exposição reúne artistas de diferentes gerações e linguagens. Como foi construir esse diálogo entre produções tão diversas?
Paulo Duarte-Feitoza: Esse talvez tenha sido um dos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores riquezas da curadoria. A exposição reúne artistas que começam sua trajetória agora e artistas que atuam desde os anos 1970 e 1980. Também aproxima pintura, fotografia, vídeo, instalação, performance, audiovisual, cultura drag, ilustração, música e arquivos históricos.
Não me interessa buscar uma homogeneidade, mas assumir a diversidade como força poética. O diálogo não acontece porque as obras são semelhantes, mas porque elas compartilham questões ligadas ao corpo, à visibilidade, ao desejo, à construção de espaços de liberdade e às negociações cotidianas da existência LGBTQIAPN+ em Goiás e no Centro-Oeste.
A exposição foi construída muito mais como uma constelação de experiências do que como uma narrativa linear. Isso permitiu que obras de períodos e linguagens diferentes produzissem tensões, aproximações e atravessamentos bastante interessantes.
João Bastos: De que maneira a mostra busca refletir as experiências LGBTQIAPN+ no contexto goiano e do Centro-Oeste?
Paulo Duarte-Feitoza: A exposição parte do entendimento de que as experiências LGBTQIAPN+ no Centro-Oeste possuem especificidades históricas, territoriais e culturais muito próprias. Existe frequentemente uma tendência de pensar as dissidências sexuais e de gênero apenas a partir dos grandes centros urbanos do Sudeste, e a mostra busca justamente deslocar esse eixo.
Em Goiás, essas experiências atravessam questões ligadas ao interior, à religiosidade, à cultura sertaneja, às estruturas familiares, à violência, mas também à criação de redes de afeto, amizade, humor, festa e resistência. A exposição procura mostrar que as existências LGBTQIAPN+ no estado não são periféricas em relação à cultura brasileira, mas constitutivas dela.
Reunindo artistas de diferentes cidades, gerações e contextos, a mostra evidencia a complexidade dessas vivências e como elas ajudaram a construir imaginários, linguagens e formas de existência no território goiano.
João Bastos: A exposição acontece no marco dos 30 anos da manifestação do Grupo Ipê Rosa, na Praça Cívica. Como esse acontecimento histórico atravessa a curadoria?
Paulo Duarte-Feitoza: Esse acontecimento possui um peso simbólico muito importante para a exposição. Em 28 de junho de 1996, integrantes do Grupo Ipê Rosa realizaram um ato na Praça Cívica reivindicando visibilidade, existência e direitos para a população LGBTQIAPN+ em Goiânia. A exposição acontece justamente no aniversário de trinta anos desse marco histórico, e, por tanto, pensada para que assim fosse.
A curadoria entende aquele gesto como um evento político, mas também como um gesto de ocupação simbólica do espaço público e de produção de memória. Existe uma dimensão muito forte de coragem naquela ação, especialmente se pensarmos o contexto social e político da época.
A exposição procura criar um arco entre aquele momento e o presente, mostrando permanências, avanços e também tensões que continuam atravessando as experiências LGBTQIAPN+ no Brasil contemporâneo.
João Bastos: Quais desafios surgiram durante o processo de pesquisa e seleção das obras e artistas participantes?
Paulo Duarte-Feitoza: Um dos principais desafios foi justamente lidar com lacunas históricas. Muitas trajetórias importantes possuem pouca documentação, poucos registros preservados ou circularam pouco institucionalmente. Em diversos momentos, a pesquisa precisou acontecer por meio de conversas, memórias orais, arquivos pessoais e redes de afeto.
Também houve o desafio de construir uma exposição ampla sem transformar essa diversidade numa narrativa homogênea ou simplificadora. A curadoria precisou encontrar maneiras de preservar as singularidades de cada artista e, ao mesmo tempo, construir um percurso coletivo.
Além disso, existe sempre o desafio institucional e estrutural de realizar uma exposição dessa dimensão dentro de uma universidade pública, especialmente num cenário de limitações orçamentárias. Mas acredito que justamente aí reside uma das forças do projeto: mostrar que a universidade pública continua sendo um espaço fundamental de produção crítica, pesquisa, memória e transformação social.
João Bastos: A mostra incorpora artes visuais, audiovisual, música e cultura drag. Ao retratar as vivências da população LGBTQIAPN+, qual a importância de trabalhar essas diferentes expressões em conjunto?
Paulo Duarte-Feitoza: Era fundamental que a exposição não restringisse a produção LGBTQIAPN+ apenas às linguagens tradicionalmente legitimadas pelo circuito das artes visuais. A cultura LGBTQIAPN+ sempre produziu formas de criação que passam pela música, performance, audiovisual, moda, cultura clubber, dança e cultura drag.
A exposição entende essas práticas como campos legítimos de produção estética e política. Incorporar videoclipes, performances, cultura drag e audiovisual é também reconhecer que muitas experiências LGBTQIAPN+ historicamente construíram seus espaços de existência justamente fora das instituições tradicionais da arte.
Isso amplia a própria noção de exposição e tensiona a ideia do que entendemos como arte contemporânea, especialmente dentro do contexto de Goiás.
João Bastos: Como você avalia o papel das universidades e dos centros culturais na promoção de exposições voltadas à diversidade e à memória LGBTQIAPN+?
Paulo Duarte-Feitoza: Acredito que universidades públicas e centros culturais possuem um papel absolutamente fundamental nesse processo. Em muitos casos, são justamente essas instituições que conseguem desenvolver pesquisas de longo prazo, preservar arquivos, construir memória crítica e promover debates públicos mais complexos.
No contexto brasileiro atual, realizar uma exposição como Essa grande liberdade dentro de uma universidade pública possui um significado político muito forte. Significa afirmar que a produção de conhecimento, cultura e memória também passa pelo reconhecimento das experiências LGBTQIAPN+.
Além disso, esses espaços têm a responsabilidade de ampliar o acesso, promover ações educativas e criar condições para que diferentes públicos possam entrar em contato com essas histórias e produções.
João Bastos: O projeto integra a Trilogia Goiás. Como essa exposição dialoga com a exposição Não Vou Negar: artes visuais, território e música sertaneja, a última pesquisa do projeto?
Paulo Duarte-Feitoza: As duas exposições partem de uma mesma tentativa: pensar Goiás a partir da arte, da cultura e das experiências sociais que atravessam este território. Tenho muito incômodo com as simplificações e os estereótipos frequentemente associados ao estado, e as duas mostras nascem justamente do desejo de enfrentá-los.
Em Não Vou Negar, a pesquisa buscava compreender como a música sertaneja constitui uma dimensão fundamental da experiência cultural goiana e do Brasil Central, ainda que muitas vezes seja tratada de maneira simplificada ou caricatural. A exposição investigava como a paisagem, o melodrama, os conflitos entre campo e cidade e as transformações do interior ajudaram a construir imaginários sobre Goiás.
Já em Essa grande liberdade, o foco se desloca para as experiências LGBTQIAPN+, mas permanece o interesse em discutir pertencimento, identidade, memória e território. As duas exposições procuram tensionar imagens cristalizadas sobre Goiás e revelar a complexidade cultural, afetiva e política do estado.
De certa maneira, ambas integram um esforço mais amplo de construir leituras menos estereotipadas e mais complexas sobre o Centro-Oeste brasileiro.
João Bastos: Quais reflexões você espera que o público leve consigo após visitar a exposição?
Paulo Duarte-Feitoza: É difícil responder essa pergunta. Espero que o público saia da exposição com a percepção de que as experiências LGBTQIAPN+ fazem parte da história cultural, política e afetiva de Goiás. Que compreenda que essas trajetórias não são marginais ou secundárias, mas fundamentais para entendermos o estado e suas transformações.
Também espero que a exposição produza encontros, identificações e deslocamentos. Que pessoas LGBTQIAPN+ possam se reconhecer na mostra e perceber que suas histórias possuem valor, força e memória. E que pessoas que talvez nunca tenham refletido sobre essas questões possam ampliar seus olhares e sensibilidades.
No fundo, acredito que a exposição fala sobre liberdade, mas também sobre presença. Sobre o direito de existir, ocupar espaços, produzir memória e imaginar futuros possíveis.
Foto: João Bastos
Então, em um contexto historicamente marcado por invisibilizações e disputas em torno da diversidade, uma exposição dedicada às múltiplas experiências LGBTQIAPN+ no Centro-Oeste possui importante dimensão cultural, social e política. Ao reunir diferentes gerações, linguagens artísticas e trajetórias de vida, a mostra amplia espaços de representação e memória, evidenciando a pluralidade das vivências dissidentes na região. A realização da exposição também ganha ainda mais relevância ao acontecer no marco dos 30 anos da manifestação realizada pelo Grupo Ipê Rosa, em 1996, na Praça Cívica, em Goiânia, considerada um dos primeiros atos públicos de orgulho LGBT+ do país. Ao estabelecer esse diálogo entre passado e presente, a mostra e a exposição reafirmam a arte como espaço de resistência, memória e visibilidade, fortalecendo debates sobre liberdade, pertencimento e direitos no contexto goiano e brasileiro.

João Bastos é estudante de Relações Públicas na Universidade Federal de Goiás e estagiário de comunicação no Centro Cultural UFG. Atua com produção de conteúdo e cobertura de eventos culturais.
Categorias: Artes Cinema CCUFG Cultura História de Goiás

