FUNDAHC 25 Anos: Exposições "Célia Câmara, uma mulher atemporal, um amor à arte" e "Fértil como terra preta"

Em 13/11/23 18:04 Atualizada em 14/11/23 10:11

 

Explorando legados: Duas exposições no Centro Cultural UFG revelam a riqueza da coleção de Célia Câmara e a expressão contemporânea afro-brasileira

 

O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebe duas exposições em celebração aos 25 anos da Fundação de Apoio ao Hospital das Clínicas (FUNDAHC). As exposições, intituladas "Célia Câmara, uma mulher atemporal, um amor à arte" e "Fértil como terra preta", estarão abertas para visitação de 17 de novembro de 2023 a 15 de janeiro de 2024.

 

 

 

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O Centro Cultural UFG apresenta a exposição “Célia Câmara. Uma mulher atemporal, um amor à arte” cuja realização oferece pela primeira vez ao público goiano uma seleção de sessenta obras que compõem uma parte do acervo iniciado sob a égide da Fundação Jaime Câmara, e doado ulteriormente para a Fundação de Apoio ao Hospital das Clínicas – FUNDAHC. Como ressalva Antônio da Mata, Diretor do Museu de Arte de Goiânia: “Teve uma grande conscientização em relação à preservação deste patrimônio artístico e cultural, reconhecendo e valorizando a sua coleção de artes visuais e afins – uma reserva técnica, otimizando a guarda, a segurança e a disponibilização para pesquisa e apreciação estética por meio de exposições em condições adequadas, que possibilitou democratizá-la, tornando-a socialmente protegida e amplamente usufruída. “


Essa exposição surgiu do desejo de expor um conjunto de obras que atestam a vitalidade do cenário da produção artística no Estado de Goiás desde a década de 1970. Ela tornou-se hoje possível, portanto, pela parceria firmada em 2019 entre a Universidade Federal de Goiás e a FUNDAHC, comemorando este ano os seus vinte e cinco anos de história, e que possibilitou ser acolhida pelo Centro Cultural UFG, sob os cuidados do setor interno de museologia que assume hoje em dia a conservação preventiva e a salvaguarda desse acervo de suma importância.


Composto de cento e vinte e nove obras, este acervo resulta do fruto de um longo trabalho de mecenato de Célia Câmara. O papel de Célia Câmara foi fundamental por meio de uma política interna da fundação de compra, coleta e armazenamento de bens culturais de natureza e tipologias diversificadas – pinturas, gravuras, fotografias, esculturas –, que pudessem contribuir assim na “difusão das memórias individuais e coletivas” assim como ressalva Antônio da Matta.


Célia Câmara dedicou uma grande parte da sua vida, buscando ampliar a presença dos artistas residentes em Goiânia e no interior do Estado de Goiás no mercado de arte. Ela colaborou na consolidação das carreiras artísticas, por meio de exposições, trazendo cada vez mais visibilidade aos artistas, em uma época na qual se firmou a identidade de uma cena artística propriamente goiana, na busca de mais autonomia e valorização do seu patrimônio cultural.


Nesse âmbito, a proposta curatorial resolveu optar por um panorama iconográfico que abraça quatro décadas de produções artísticas - sendo a mais antiga uma pintura do artista Cleber Gouveia, datada de 1971 -, e propor um percurso retrospectivo de obras ainda não expostas ao público. O recorte selecionado surpreende pela diversidade dos estilos que dialogam com os maiores movimentos artísticos da arte moderna e contemporânea, mas sempre mantendo de modo significativo um laço com a cultura regional, como por exemplo a tela de G. Fogaça que lembra as paisagens fauvistas de Henri Matisse ou de Maurice De Vlaminck, as telas de Carlos Bracher, de Virginia Guimarães, ou de Adelina Alcântara que se aparentam às figuras e às paisagens expressionistas inquietas de Karl Schmidt Rottluf ou de Max Beckman, passando pela composição com garrafas de Roosevelt, a construção geométrica de Di Paiva, nas quais ecoam as lições cubistas de Pablo Picasso; ou ainda a colagem de Carlos Scliar que brincam com as palavras assim como faziam Kurt Schwiters ou Raoul Hausmann.


Destaca-se igualmente uma referência aos murais de Diego Rivera nos retratos dos camponeses de Alcione Guimarães, a celebração de uma arte popular brasileira secular nas telas naives e super tónicas de Fé Cordula ou nas cenas nas quais as figuras humanas suaves e silenciosas de Omar Souto lembram a melancolia das fotografias pintadas dos mestres do Ceará. Melancolia esta, que se inocula na série das fotografias de rostos cercados por uma vitrine de chumbo de Anahy Jorge, post mortem infinito diante do tempo que corrói a fina membrana da memória de papel.


Não podem ser esquecidas as obras de Selma Parreira, Anselmo Rodrigues, Ciça Fitipaldi ou Filomena Gouvêa, cuja destreza do gesto alcança a firmeza poética e eloquente das melhores abstrações líricas da década de 1960. Mergulhados dessa força gestual, chegamos até outros espaços pictóricos, nos quais a pintura encontra a sua expressão figurativa mínima mais potente, por meio de uma guinada chamada em seu tempo pós-moderno de figuração livre, na década de 1980; são obras de Célio Braga, Edney Antunes, Marcelo Sola, Marques de Sá, Pitágoras, Rodrigo Godá, ou ainda Elder Rocha.


Esta lista – longe de ser exaustiva –, de artistas que contribuíram tanto na consolidação das artes visuais na cidade de Goiânia, nos leva a refletir sobre o que pode definir, hoje em dia, o papel do colecionador e no caso que nos interessa, da sua vertente feminina. Walter Benjamin, em seu estudo sobre Charles Baudelaire: Um lírico no auge do Capitalismo, aproximou o colecionador ao poeta, referindo-se a Charles Baudelaire. O colecionador, assim: “compila os anais da devassidão, o cafarnaum da escória; separa as coisas, faz uma seleção inteligente; procede como um avarento com seu tesouro e se detém no entulho que, entre as maxilas da deusa indústria, vai adotar a forma de objetos úteis ou agradáveis." Figura discreta e, portanto, enigmática, cujo desejo aproxima-se paradoxalmente do fetiche, Giorgio Agambem, em seu ensaio intitulado Estâncias, concluí : “O que o colecionador procura no objeto é algo absolutamente impalpável para o não colecionador, embora também use ou possua o objeto, assim como o fetiche não coincide de modo algum com o objeto em sua materialidade.”

 

Prof. Dr. Samuel José Gilbert De Jesus
Coordenador da Galeria do CCUFG

 

 

 

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 “Fértil como terra preta”, é o título da presente exposição que resulta de uma proposta curatorial idealizada pela equipe do Centro Cultural UFG, em parceria com a Fundação de Apoio ao Hospital das Clinicas [FUNDAHC], para comemorar o Mês da Consciência Negra, celebrada no dia 20 de novembro, dia da morte do líder Zumbi dos Palmares, no ano de 1695, que dedicou a sua vida na luta contra a escravidão. Esse evento, de suma importância, ressalta a necessidade de trazer, na cena sociopolítica e cultural do país, os debates e as ações afirmativas visando a combater o racismo e a desigualdade social, assim como o reconhecimento, o respeito e a valorização da cultura afro-brasileira, em todas suas expressões artísticas. Fruto de uma proposta curatorial colaborativa entre o CCUFG e o Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura, FAV-UFG, essa exposição oferece aos visitantes uma seleção de obras de nove jovens artistas oriundos de diferentes regiões do país e que estão residentes em Goiânia.


Atravessada pelo forte desejo de promover o Mês da Consciência Negra, a proposta curatorial apresentada pela primeira vez, na Galeria do CCUFG, a exposição “Fértil como terra preta” que se destaca pelo seu caráter heterogêneo e pela diversidade das obras expostas. Cada artista participante investiga uma pesquisa que questiona o legado cultural da arte afro-diaspórica, na cena da arte contemporânea regional, nacional e internacional. Essa exposição, montada na Galeria de vidro do CCUFG, ressalta igualmente a missão do CCUFG em suas diversas vertentes artísticas e pedagógicas, tornando essa galeria em um espaço de pesquisa experimental no que tange ao uso e ao impacto na sociedade de um espaço expositivo que venha atender todos os rumos socioculturais e étnico raciais da capital goiana.


Modesta em termo de ocupação espacial, a exposição “Fértil como terra preta” é, no entanto, bem mais ambiciosa em seu devir, se consideramos a atuação artística promissora dos artistas que compõem o seu elenco: Abrão Veloso, Danink, Elida Ketlyn, Jhony Aguiar, Rafael Vaz, Rayani Rodrigues Melo, Tor Teixeira, William Maia e Xica. O título, por mais paradoxal que seja, se procuramos em Goiás essa terra de cor preta, encontra a sua resposta na contribuição que Rayani Rodrigues Melo, curadora associada ao projeto, traz acerca de um espaço singular de reflexão sobre a visibilidade de uma arte contemporânea negra no centro-oeste, uma vez que o “centro” remete ao protagonismo artístico dos artistas e à localização geográfica, também marcada por um solo orgânico de acidez elevada. “Fértil como terra preta”, frase cheia de simbolismo, é de Fernanda Rodrigues de Miranda, autora do livro Silêncios prescritos. Estudos de romances de autoras negras brasileiras (1859 - 2006), publicado em 2019, no qual a autora estuda o silêncio sistemático da voz da mulher negra na produção literária nacional.


Mas, desta vez, não será questão de silenciamento, mas sim, de gritos. Gritos poéticos, gritos tecidos, gritos desenhados, pintados ou bordados. Gritos que florescem no solo fértil da imaginação radical negra, imaginação essa que, acima de tudo, propõe um vislumbre de um futuro farto, onde a gramática da dor não é imperativa, embora jamais sejam esquecidas todas as violências derramadas sobre o povo negro. Em suma, uma imaginação radical capaz de fornecer todos os instrumentos epistemológicos para incentivar o engajamento social por meio de ações afirmativas promovendo o patrimônio afro-brasileiro.


Remetendo ao título cantando pelo grupo de rappers Racionais Mc´s, declamando no palco, com uma verve imparável, que “Fértil como terra preta é a mente do vilão; Quem vem lá; Seis função vindo de galachão; O coração da quebrada percorrendo as artérias; Vão, vão, nunca em vão; espalhando os sonhos em grãos.” Grãos e sementes espalhadas hoje em dia incansavelmente no solo fértil da arte e que, após uma longa dormência, surgem enriquecidos e brotam na terra sensível dos nossos imaginários coletivos.

 

Samuel José Gilbert De Jesus
Rayani Rodrigues Melo

 

 

 

SERVIÇO

 

Exposições: “Célia Câmara, uma mulher atemporal, um amor à arte” e "Fértil como terra preta"

 

Quando: De 17 de novembro de 2023 a 15 de janeiro de 2024

 

Visitação: De segunda a sexta das 9h às 12h e das 14h às 17h - Agendamento de grupos pelo telefone 3209 6499

 

Local: Centro Cultural UFG, Av. Universitária, 1533, Setor Universitário

 

Classificação Livre

 

ENTRADA FRANCA